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OBSESSÃO: UM OLHAR PARA O EU

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A obsessão é um fenômeno que apresenta uma complexa análise em sua performance. Falar de obsessão é necessariamente falar do ser humano, suas dores, suas angústias, sua intimidade. É um tema muito estudado, discutido e falado no movimento espírita, mas que ainda carece de maior e mais profunda atenção dada sua natureza inter-relacional. Em última análise, o fenômeno obsessivo revela um olhar para o eu, tanto do que se convencionou chamar de obsessor quanto do obsediado. Com a consciência velada pelos elementos emocionais que os vinculam, ambos são, antes de qualquer coisa, “prisioneiros” de si mesmo.

O fenômeno da obsessão suscita confusão ainda hoje quanto ao seu entendimento. Por isso, é importante estabelecer inicialmente a diferença entre obsessão e interferência espiritual negativa. Uma e outra se distanciam quanto ao objetivo. Na relação obsessiva, há uma consciência empreendendo esforços para causar prejuízo, para fazer o mal à outra. Observa-se aí uma vontade deliberada em ocasionar o mal. Já na interferência espiritual negativa o mal causado não é o objetivo do seu causador que, muitas vezes, nem sabe que está fazendo o mal.

Em seu intenso trabalho de estruturação e divulgação das bases do Espiritismo, Allan Kardec reservou um capítulo próprio em O Livro dos Médiuns para tratar do assunto, tamanha a relevância do tema. Já em O Livro dos Espíritos, o princípio da obsessão é delineado pelos Espíritos, quando, na questão 467, respondem à pergunta de Kardec: “Podemos nos livrar da influência dos Espíritos que nos chamam com insistência ao mal? Sim, porque eles somente se ligam àqueles que os solicitam pelos desejos ou os atraem pelo pensamento”.

Em O Livro dos Médiuns, Kardec define obsessão como “o império que alguns Espíritos sabem tomar sobre certas pessoas”. Esclarece ainda que “a obsessão apresenta caracteres diversos”, estabelecendo, no entanto, apenas três grandes grupos para graduar o que chama de “constrangimento e suas consequências de um Espírito sobre o outro”: a obsessão simples, uma influência simplesmente desagradável, leve; a fascinação, uma influência bem mais grave, apresentada como uma ilusão produzida por um Espírito que engana o médium sem que ele saiba; e a subjugação, moral ou corporal, verdadeiro domínio que um Espírito exerce sobre outro, paralisando a vontade de quem sofre. Contudo, é em A Gênese que Kardec torna indiscutível a problemática da obsessão, quando estabelece que “é sempre o resultado de uma imperfeição moral”.

Quando analisamos o raio x da obsessão com as lupas da atenção, compreensão, sinceridade e humildade, percebemos que, além de uma relação obsessor-obsediado, há todo um contexto histórico estruturador, sendo o fenômeno apenas a equação de uma história. Nessa história protagoniza a incompreensão de nós mesmos, evidenciada pela dor e pelo sofrimento humano. Carecemos muito de inteligência emocional ainda e, em diversos níveis de sono, não conseguimos perceber o nosso papel e para onde apontam as relações que estabelecemos com o mundo dos encarnados e dos desencarnados.

Tratando da natureza, origem e destino do Espírito imortal, o Espiritismo, jogando luz em questões ainda muito resistidas em aceitação e incompreendidas, apresenta uma teoria que nos proporciona meios para olhar para essa realidade enquanto indivíduos propícios a viver essa experiência. As teorias espíritas, em particular as que estão relacionadas ao fenômeno da obsessão, regidas pela educação do espírito através da reforma íntima, coloca-nos sob a responsabilidade de construir e conquistar a autonomia para gerir nosso destino quase sempre obscurecida pela ilusão, culpa, orgulho, egoísmo, fruto da imaturidade de consciências ainda à espera de salvadores e guias.  

Desde o início das suas publicações o professor Kardec registrou, junto com os Espíritos, a responsabilidade que sempre nos cabe, se não no todo pelo menos em parte, como podemos ver na resposta à Questão 474 de O Livro dos Médiuns: “(…) Mas ficai sabendo que essa dominação nunca se efetua sem a participação daquele que a sofre, seja por sua fraqueza, seja por seu desejo (…)”. É por isso que, observando a estreitíssima relação entre quem supostamente faz o mal e quem o sofre, e identificando nessa relação a fragilidade atuante pela dor e sofrimento dos envolvidos nas relações obsessivas, enfatizamos a importância e a necessidade da intransferível tarefa de olharmos para nossa intimidade, desvelando as aparências proporcionadas por maya e levando à consciência a realidade das verdades imersas, dando novos contornos à concepção de vida.

Somente a partir do olhar para o eu, muito trabalho, coragem, persistência e uma transformação contínua nas raízes da alma, é que a verdadeira cura será proporcionada, afastando assim, progressivamente, as possibilidades de se viver experiências desse nível. O amadurecimento da alma reclama a educação na área intelectual e afetiva e o exercício constante nas diversas dimensões da vida.

Autor: Júlio Leão